Este sítio utiliza cookies para assegurar uma melhor experiência de utilização. Ao continuar a navegar está a concordar com a sua utilização.

PT EN

Resposta à notícia publicada pelo Diário de Notícias intitulada 281 mil portugueses beberam água com vestígios de fezes

2013.06.17

A+ A-

A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), no âmbito da sua missão de autoridade competente para a qualidade da água destinada ao consumo humano, não pode deixar de refutar veementemente o título e parte do conteúdo da notícia publicada pelo jornal “Diário de Notícias” no dia 16 de junho, que, além de ser alarmista, não tem qualquer rigor técnico ou científico.
É importante esclarecer que os Portugueses que utilizam a água dos sistemas públicos de abastecimento em momento algum “bebem água com vestígios de fezes”. Pelo contrário, têm à sua disposição uma água de muito boa qualidade como atestam os diferentes relatórios publicados pela ERSAR e é reconhecido por diversas entidades idóneas e independentes. Hoje em dia verifica-se o cumprimento da exigente legislação europeia e nacional em 98% das mais de 600 000 análises realizadas anualmente, colocando Portugal ao nível dos países mais evoluídos nesta área. Nestas matérias, a utilização de linguagem desadequada induz o cidadão num sentido que não é claramente o real.
Não podemos também deixar de referir que os números apresentados pela notícia demonstram falta de conhecimento relativamente ao processo de controlo da qualidade da água, cujas amostras são recolhidas nas  torneiras  utilizadas  pelos  consumidores.  Efetivamente, quando  são  detetados  incumprimentos aos valores máximos permitidos por lei nos parâmetros microbiológicos, estes são referentes à torneira onde foi recolhida a amostra de água e não podem ser de forma alguma extrapolados para toda a população servida por esse sistema de abastecimento, como acontece com esta notícia, pelos que os números referidos de população afetada em nada correspondem à realidade.
Refira-se que todos os incumprimentos dos valores permitidos por lei detetados no âmbito do exigente controlo legal efetuado pela totalidade das cerca de 400 entidades gestoras dos sistemas públicos de abastecimento de água são comunicados à ERSAR e às respetivas autoridades de saúde em 24 horas, permitindo reações rápidas e evitando que a proteção da saúde humana seja colocada em risco. Salienta-se ainda que os resultados referidos na notícia, designadamente do parâmetro E. coli, foram acompanhados pelo procedimento referido e são na sua grande maioria pontuais, não colocando em risco a proteção da saúde dos consumidores.
Relativamente ao critério escolhido de considerar apenas as zonas de abastecimento com mais de 10% de incumprimento de bactérias coliformes, esclarece-se que 87% das zonas de abastecimento tinham seis ou menos análises regulamentares para realizar e 61% apenas detetaram um incumprimento. Se considerarmos o parâmetro E. coli, 91% das zonas de abastecimento com mais de 10% de incumprimento tinham seis ou menos análises regulamentares para realizar e 75% detetaram apenas um incumprimento. Ora, estes dados evidenciam que a maioria dos incumprimentos são claramente pontuais e o critério de 10% não é estatisticamente relevante para uma zona de abastecimento que tem que demonstrar a conformidade da qualidade da água apenas com seis análises anuais.
Mesmo no caso identificado pelo jornalista em Peso da Régua na zona de abastecimento Central, foram detetados quatro incumprimentos em 36 análises realizadas, cujas análises de verificação evidenciaram a adequabilidade das medidas corretivas implementadas pela entidade gestora. Refira-se que em 2012 os incumprimentos destes parâmetros nesta zona de abastecimento reduziram para metade.
Consideramos ainda que a expressão “…não se tem conseguido ultrapassar este tipo de problemas, que normalmente atingem povoações mais pequenas…”, atribuída ao Prof. Francisco Ferreira, não corresponde exatamente à verdade. De facto, analisados os diversos relatórios anuais da qualidade da água publicados pela ERSAR constata-se que, apesar da existência de assimetrias regionais, estas têm vindo a esbater-se de ano para ano, ou seja, todo o setor está a trabalhar para a melhoria da qualidade da água nos pequenos sistemas de abastecimento. Aliás, importa esclarecer que a ERSAR introduziu em 2009 a obrigatoriedade de desinfeção da água para todas as zonas de abastecimento, medida que tem vindo a contribuir para a melhoria da situação nomeadamente nos pequenos aglomerados. Não é despiciente dar nota que de 2004 para 2011 controlaram-se mais 110 zonas de abastecimento, na sua maioria de pequena dimensão. Considerando que as grandes zonas de abastecimento já apresentam níveis de qualidade da água muito elevados há alguns anos, estes dados só enfatizam que as melhorias verificadas no desempenho nacional também têm sido conseguidas nas pequenas zonas de abastecimento.
Por todas estas razões, não existem quaisquer fundamentos que suportem os números apresentados pela notícia, realçando-se que a análise efetuada pelo jornalista não consta de nenhum documento da ERSAR.
Importa também dar nota que a ERSAR dispõe de um corpo técnico especializado na qualidade da água destinada ao consumo humano, que fiscaliza o cumprimento da legislação nacional e comunitária nesta matéria e, por força de razão, está habilitado a prestar todos os esclarecimentos necessários de uma forma imparcial, isenta e tecnicamente correta. Estranhamos não termos sido contactados para esclarecer o autor da notícia, procedimento que teria evitado uma publicação que coloca erradamente em causa o trabalho de milhares de técnicos de um setor que tem revelado uma evolução absolutamente inegável e inclusivamente reconhecida internacionalmente, como que se comprova pelo recente arquivamento do último processo de pré-contencioso que Portugal tinha com a Comissão Europeia, relativamente aos dados da qualidade da água de 1999 e 2000.
O problema não é a identificação de casos problemáticos referidos na notícia, mas sim a extrapolação que fazem dessas exceções e a consequente mensagem distorcida e alarmista a toda a população, denegrindo o trabalho desenvolvido e, acima de tudo, funcionando em contraciclo com a crescente confiança que os Portugueses têm na qualidade da água que lhes chega às suas torneiras.
Aos consumidores reafirmamos que bebem hoje uma água de boa qualidade em  praticamente todo o território nacional. Recomendamos que consultem regularmente os resultados de qualidade da água do seu local de residência, através dos editais obrigatórios das entidades gestoras ou da consulta da informação detalhada da entidade reguladora, por município e por zona de abastecimento, disponíveis em www.ersar.pt.
Da nossa parte continuaremos a trabalhar com as entidades gestoras, os laboratórios de análise e as autoridades de saúde para que se continue a assegurar a qualidade da água na torneira dos consumidores.

 

Documentos Associados